O fim de semana começa com uma notícia triste no mundo da moda: morreu em Paris neste sábado, aos 77 anos, Azzedine Alaïa. O couturier nascido na Tunísia morava na capital francesa desde 1957, para onde se mudou em busca de trabalho. Logo depois de chegar lá, ele conseguiu um emprego na Christian Dior, mas foi demitido porque não tinha documentos de imigrante.

Alaïa, que no início da carreira sonhava em ser escultor, também passou temporadas na Guy Laroche e na Thierry Mugler antes de abrir seu próprio atelier, em meados dos anos 1970, e conquistar clientes como Greta Garbo e a socialite Marie-Hélène de Rothschild. Altamente reverenciado por suas roupas que moldavam o corpo em proporções extraordinárias, resultado da obsessão que tinha por perfeição, ele apresentou sua primeira coleção de prêt-à-porter em 1980.

Aposentado desde 1992, o estilista deu um tempo no descanso em 2011, quando lançou, para a surpresa de muitos, uma coleção de couture com um desfile realizado em sua boutique na Rue de Moussy e que contou como Naomi Campbell em uma rara aparição nas passarelas. Já em 2015 ele lançou seu primeiro perfume, batizado Alaïa Paris e criado por Marie Salamagne.

Conhecido por ser um dos únicos a ainda desafiar os calendários de moda oficiais, ele apresentava suas coleções para imprensa e clientes em eventos separados em seu ateliê em Paris, onde foi radicado como um dos mais importantes estilistas da atualidade.
“Criar um perfume é confiar em uma mulher, roubar seus pensamentos de amanhã e fugir com ela antes que nunca mais olhe para trás…Criar um perfume é também saber que, naquele exato instante, as palavras que uso para contar o meu segredo já não me pertencem mais…”, ele disse na época sobre a fragrância, que demorou 30 anos para se tornar realidade.
O estilista ganhou notoriedade por roupas que pareciam verdadeiras obras de arte, talvez herança dos estudos de escultura que participou na faculdade. As peças, que sempre desafiavam as convenções de estilo da época, tornaram-no um hit no bairro do Marais, onde estabeleceu seu ateliê. Couro, fetiche e proporções ousadas logo se tornaram marcas registradas de Azzedine.
Querido no mundo da moda, era amigo dos principais editores e das mais famosas modelos do mundo. Todos usaram as redes sociais e suas páginas na internet para lamentar a morte do estilista. Editor da Vogue britânica, Edward Enninful foi só elogios: “Azzedine Alaïa era visionário e marcante. Todos que o amavam e conheciam sentirão muitas saudade, assim como as mulheres que usavam suas roupas ao redor do mundo”, afirmou em declaração publicada no site da revista.

Em 2014 a Vogue consegui uma bela entrevista sobre a sua criação, vamos relembrar..
Deveríamos estar assistindo ao vídeo de sua última coleção juntos - Azzedine Alaïa e eu. Mas mesmo antes que a primeira jaqueta estilo safari com cinto ou a primeira teia de vestido de tricô tivesse chegado à tela, Azzedine já tinha outras ideias.
Ele havia pego um pedaço de tecido, cortado no formato de uma gola, marcado as costuras alinhavadas e foi à tábua de passar.
Lá ficou ele, uma pequena figura de preto, dos cabelos à túnica aos pés, saindo de uma nuvem de vapor.
“Estava apenas fazendo uma pequena correção”, disse Azzedine, que deve ser o único estilista responsável pelo processo inteiro, desde cortar com aquelas tesouras até trabalhar com seus funcionários italianos de malharia para transformar fio em renda.
Por trás das costuras na Azzedine Alaïa há um elemento de magia – e não apenas para descobrir como uma camisa pode ser tão fina quando o estilista a anuncia como sendo de “malha”.
Por trás das costuras na Azzedine Alaïa há um elemento de magia – e não apenas para descobrir como uma camisa pode ser tão fina quando o estilista a anuncia como sendo de “malha”.
O ponto de partida foi o almoço na cozinha – uma versão da moda para a multiplicação dos pães e dos peixes – com funcionários, costureiras, visitantes russos e cães grandes e pequenos entrando e saindo.
Depois, passamos pela sala de provas, supervisionada por um retrato vermelho-sangue de Alaïa feito pelo artista americano Julian Schnabel. Nem mesmo o fato de que a empresa de Azzedine agora faz parte do grupo de luxo The Richemont altera a percepção de que se trata da banda de um homem só.
À medida que caminhamos pelo espaço de exposição, guarnecido por ferro fundido no teto, aprendi muito tocando os tecidos e ouvindo Azzedine explicar a técnica.
“Aquilo é ráfia trabalhada dentro do tule, enquanto esta é mais opaca e menos transparente”, me disse o estilista, para que entendesse a sutileza da “maille” ou malha adequada para o dia ou para a noite.
Certa vez – pelo menos uma década atrás – chamei Alaïa de “o maior couturier sem nunca ter sido”. E ainda sinto isso. As grandes habilidades do estilista são de especialista, compreendendo o corpo feminino e, é claro, entendendo a maneira como a moda está se movendo.
Pegue como exemplo shorts – ou os “skorts” híbridos encontrados em qualquer loja de fast-fashion. É assim que Azzedine os faz: um corte complexo de costuras e pontos onde o efeito mágico da elegância e do glamour parece tão simples.
Gostei de vestidos mais longos, não com aquele look de mão pesada dos anos 70, mas algo muito mais sutil – ainda que houvesse detalhes de franjas trabalhados na saia.
“As pessoas querem barras longas,” disse Azzedine, ainda que, um minuto depois, ele estivesse me mostrando lindas saias curtas em crocodilo vermelho.
É difícil compreender no próprio desfile a amplitude do que Alaïa oferece. Fui atraída para coisas aparentemente simples: camisas de alfaiataria, elegantes em algodão japonês ou frescas feitas de popeline com renda.
No final do estúdio me lancei sobre os sapatos e bolsas, já que esta é uma das raras empresas atuais em que as roupas são a raiz, e os acessórios florescem a partir daí. As bolsas de couro com corte de renda são um exemplo maravilhoso.
Azzedine tinha algo mais para oferecer: subimos até seu ateliê, onde as costureiras de couture estavam criando um grande círculo de tecido com costuras que caía sobre um vestido de noiva (o nome da cliente é segredo).
Outra roupa de alta-costura era um vestidinho preto com a superfície com toques dourados.
Ainda assim, pessoalmente, não achei nada mais adorável nesta vastidão da coleção do que a aparente simplicidade dos vestidinhos brancos de Alaïa.
Aguarde nosso especial em homenagem ao estilista.
Beijos no Coração 💖


